Dysfemismo

Thursday, September 13, 2007

O Sustentáculo do Bem

Por Bem e Mal entenderei, para os fins aqui propostos, aquilo que o senso comum entende amplamente por ambos; a saber, que o Bem é o que é genericamente agradável e o Mal, aquilo que é genericamente desagradável.

A distinção da metafísica platônica (que de forma alguma se restringe a sua filosofia, mas, pelo contrário, parece-me tão freqüente que suspeito de sua inerência intrínseca a filosofia) considera o Mal como carente de Ser, Inexistente em si mesmo, por ser na verdade ausência de Bem. Não há substantia do mal.

Não seguirei esta tradição aqui embora compartilhemos as mesmas conclusões a este respeito, como, por exemplo, em Hanna Arendt.

Em termos objetivos, ainda que careçam de Ser, nos parece óbvio que as ações desagradáveis são múltiplas e freqüentes no convívio social do gênero humano; por isto, justamente, doutrina-se moralmente cada individuo: dotando-o de superegos fantásticos que estorvam a prática do mal na sociedade.

Até aí, nada de novo.

Um indivíduo ingênuo, porém, observador, poderia objetar “bom, aparentemente, não está funcionando!”.

Isto ocorre porque ao longo de séculos de superego, a humanidade desenvolveu notável capacidade de esconder de si mesma o mal inexorável de suas próprias ações, seja através de negação, de argumentação, ou ainda do tentador recurso de salvação pelo sofrimento, no qual o praticamente de determinado mal particular protesta sobre o quanto sofreu em tal prática, intentando assim a redenção.
Enfim, seja como for, o fato é que é perfeitamente possível esconder de si mesmo o mal praticado. Porque parece, até aos olhos do mais cético observador, que o mal jamais é praticado intencionalmente, a menos que seja um mal particular com vista em um determinado bem (prejudicar outro em benefício próprio, por exemplo).

Atuando como sustentáculo do Bem, portanto, nos resta somente o pensar. Através da atividade reflexiva, torna-se muito mais difícil que não se perceba o mal cometido.

Não é, infelizmente, qualquer atividade da faculdade reflexiva que chamo aqui de pensar; já que o pensar vulgar torna-se somente mais um instrumento de reiteração da tentativa de esconder de si mesmo o mal praticado. É através do pensar imbuído do eros filosófico, num processo árduo que envolve frequentemente o confronto com a sua própria imagem de si mesmo de forma dolorosa, que se consegue entrar em contato com o Bem ou o Mal de sua ação individual.

Como isto é muito mais difícil, o caminho natural foi o do excesso de repressão, sempre intensificada na tentativa de evitar a mais frequente prática do mal, quando na verdade isto só resulta em menos pensar, porque quanto mais rígido um código moral, maior a necessidade do individuo de esconder de si mesmo as próprias ações e, consequentemente, maior sua chance de estar apto a praticar o mal involuntariamente.

16 Comments:

  • Só conseguimos modificar um comportamento ou uma atitude se o enxergarmos como não produzindo nada de benéfico pra nós ou pros outros no processo. Mas, como dizes, isso é imensamente difícil e a razão da dificuldade é que isso nos machuca. Nos olhar no espelho com olhos de enxergar é algo que invariavelmente dói. Mas é necessário. É um processo doído, longo mas no final nos traz alívio. Uma maneira de fazer isso é se questionar sobre suas próprias ações. É tão mais fácil questionar as ações dos outros...

    By Blogger Anne M. Moor, At 4:56 AM  

  • Deixar de mentir pra nós mesmos...

    By Blogger Anne M. Moor, At 4:57 AM  

  • Ao praticar X, você estará fazendo mal a um Y qualquer e bem a um outro Z.
    Você pode ser o "socialista" (no sentido de pensar no bem social) e decidir se faz X ao calcular: bem-para-Z menos mal-para-Y. Não conheço ninguém que haja assim (talvez um político ideal o fizesse?)
    Você pode ser o egoista e simplesmente fazer X, sem pensar nos outros e sem se sentir coagido pela moral da sociedade. Dizem que esses são os sócio-patas (ex.: Suzaninha Von Richtofen).
    Você pode seguir o que o pastor da igreja mais próxima diz, e aí, convenientemente, nenhuma culpa será sua.
    Você pode seguir o que a lei diz. Aí qualquer mal causado por X não será levado em consideração, se X for legal.
    O problema é que nenhum desses modelos é conveniente para a maioria das pessoas, que terminam tendo que criar o seu próprio. Cae-se (do verbo "cair". Talvez eu tenha inventado um tempo verbal), aí na escolha em pensar demais no mal que está causando e não fazer nada ou pensar de menos e fazer mal demais. Sendo isso dois extremos de um contínuo e não dois pontos isolados.

    Mais para frente posto mais...

    Avz

    By Blogger Avz, At 2:27 PM  

  • Bem e mal, superego, Platão, maniqueismo, culpa...Porque vim te visitar tão cedo de manhâ?! Terei um dia de questionamentos...
    Beijo

    By Anonymous Glaura, At 2:45 AM  

  • avz, a qustão que abordo aqui é sobre o estatúto ontológico do mal, embora nao seja muito a minha linha.
    Mas o ponto é que ainda que pensando relativamente, sem pensar voce tem mais chance de beneficiar Z e prejudicar Y indiscriminadamente, porque obviamente tudo beneficia alguem e prejudica alguem.

    O ponto é que é impossivel que o beneficio que voce conferiu a uma pessoa seja classificado como prática do bem se voce fez sem pensar. É apenas uma eventualidade probabilística do seu ato maligno, já que nenhum mal pode ser absoluto em função de seu próprio estatuto ontológico de não-ser.

    By Blogger Rodrigo Ferrari, At 2:03 PM  

  • Gostei do texto.
    Embora no extremo pensar filosófico não me pareça que os conceitos de bem e mal possam, do ponto de vista do autor da ação, aplicar-se a outras pessoas.
    Mas é tarde e eu estou cansado demais para discorrer sobre o tema.

    By Blogger Flavio Ferrari, At 9:26 PM  

  • A objeção não faz o menor sentido.
    Não me ocorre nenhuma razão que possa resultar na impossibiliadade do mal alheio visto que a prática do bem e do mal, na minha concepção, referem-se ao agradável e desagradável aos outros.

    A questão é que aquele que pensa terá muitos problemas a respeito do seu próprio bem-agir pra perder seu tempo discutindo sobre o mal-agir dos outros, o que é perfeitamente razoável.

    By Blogger Rodrigo Ferrari, At 9:04 AM  

  • Se uma ação X é desagradável ao outro (e, portanto, má) e eu me sinto desagradável por ter causado mal a este, ela é desagradável a mim também.
    No entanto, o outro pode ser um fresco e pentelho e estar se sentindo desagradável a toa, o que tornaria a ação X não-má e a frescura do outro má, sem que este saiba.

    By Blogger Avz, At 1:09 PM  

  • belíssima objeção, e é exatamente aonde eu quero chegar

    não se distingue no ato em si entre frescura e ação desagradável.

    Por causa disto, voce precisa pensar pra fazer uma distinção interna condizente com os valores que te passaram, e, pensando, os seus atos desagradaveis são minimizados ao razoável e natural (porque nao se pode deixar de cometer o mal por toda uma vida, evidentemente).

    Mas isto só se voce pensar. Se voce não pensar, vai se distanciar da distinção entre frescura e desagradável cada vez mais pra o lado da conlcusao implicita de que quando nao é com voce, é frescura

    By Blogger Rodrigo Ferrari, At 6:49 AM  

  • Viver se torna insuportável quando você pensa em quantas bactérias estão sendo capturadas pela sua respiração e mortas por seus anticorpos.

    By Blogger agente laranja, At 7:20 AM  

  • E para ("o lado da conclusão implícita) de que quando é com você (sendo você a "vítima") não é frescura...
    É engraçado como muitas vezes nos questionamos se o que estamos fazendo é mal ou não, mas raramente nos questionamos se o que o outro faz conosco é mal. Se nos sentimos desagradáveis, rotulamos como mal e nem paramos para pensar se não somos nós que estamos sendo frescos...

    By Blogger Avz, At 2:05 PM  

  • Portanto, a empatia, que deveria ser uma coisa boa, só nos causa sofrimento, pois nos afastamos de nossa concepção interna de mal/bem para tentarmos entender o que vai pelos sentimentos do outro...

    By Anonymous Glaura, At 1:24 AM  

  • Mas há males que vem para bem ...

    By Blogger Flavio Ferrari, At 10:49 PM  

  • Você está melhor, não é? Todo esse pensamento sobre o bem e o mal contém muito pouco de amargura. Esse pessoal escreevendo de madrugada me dá um sono!... Mas é um elogio para você.-abraço-zuleica

    By Anonymous zuleica, At 6:10 AM  

  • Ao que me parece, hoje vivemos numa sociedade muito mais libertina que antes. Não mais temos regras e posições sociais fixas tais como possivelmente nossos pais e ávós, mais fortemente nesse caso, tiveram. Através da individualidade se cria a liberdade e ao invez de repreenções temos libertações. "O homem está fadado a ser livre" disse Socrátes. Não é a repreenção que causa angustia no homem. Quando este está incluso em um grupo, sua consciencia individual, culpa e responsabilidade de suas ações são justificaveis por um bem maior. Repreendido ele não chega a consciencia do mal, de culpa. Ao se tirar as repreenções e não ao te-las em maior força temos a impressão de que ela está mais forte do que nunca, mas o que na verdade se torna forte nesse cenario é o sentimento de culpa individual por se ser livre e ter que arcar com as consequencias para o bem ou mal de cada uma de suas ações.

    By Anonymous Bruno, At 11:04 AM  

  • Posso concluir que o sustentáculo do bem é a liberdade? Gostei!

    By Blogger Udi, At 12:36 PM  

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